quarta-feira, outubro 22, 2008

 
O carrinho eléctrico deslizava lentamente no estreito caminho de alcatrão que serpenteava entre os vastos relvados do jardim, enfeitado por palmeiras, acácias, faias, arbustos e flores. Sentado dentro dele uma criança irradiava a beleza do seu contentamento, falava e sorria familiarmente para o adulto que caminhava à sua frente entre os variados matizes de verdes e castanhos, com o espelho do rio calmo no fundo a reflectir as nuvens brancas.

Atrás deles caminhava outra criança acompanhada por um homem que lhe chamava a atenção apontando para um bando de flamingos que voavam em direcção a uma língua de lodo que a maré ao vazar ia descobrindo, onde pousaram delicadamente começando logo a procurar com o bico o alimento que ali havia.

Mas a criança não ligava a nada daquilo. Ela caminhava com a insatisfação e o desejo estampados no rosto enquanto puxava pelo tecido das calças do adulto na altura do joelho. Nem os bandos de pássaros que numa algazarra de chilreios disputavam um lugar para passar a noite, nem o variado colorido dos equipamentos das muitas pessoas que no final da tarde procuravam o prazer de praticar desporto ou simplesmente caminhar entre a natureza, nem mesmo alguns cães que se perseguiam velozmente sobre a relva, distraíam a criança dos seus intentos.

Com as faces avermelhadas pela emoção e com as lágrimas a pingar do queixo ouviu-se a sua voz angustiada trazida por uma rabanada de vento que levantou as folhas acastanhadas naquele soalheiro dia de outono: "Compra-me um carrinho daqueles!!". 

O adulto pegou na criança ao colo e enquanto se afastava depressa daquele local ia tentando confortá-la com expressões carinhosas e sorrisos de afectividade. Ainda era muito cedo para lhe ensinar que é o desejo de ter, exacerbado pelas sedutoras técnicas de oferta, que empobrece o ser conduzindo-o às vezes a uma dependência material acima das suas posses. "Pode ser que o pai te ofereça um no Natal".


quinta-feira, outubro 16, 2008

 


No alto da escarpa íngreme
Frente às muralhas do castelo
Contemplas vago o oceano
Ouvindo o marejar das ondas

Barcos que partem ondulantes
Lembram-te aventuras de outrora
Sofrido caminho das Indias
Abrindo rotas Imperiais inesperadas

E voltaste de novo aqui
Onde o cheiro do mar invade
As estreitas ruas de calçada

Mais que o símbolo em bronze
Pensamento brilhando nas cores
Saudades da Ilha dos Amores


Sines 25/09/08

 

O Banquinho



Com mãos de artesão criaste um dia um pequeno banco de criança.
Empalhaste-o sólida e cuidadosamente, pintaste-o de uma cor bonita e ofereceste-mo.
Ainda hoje lá está em casa e quando olho para ele revivo os meus tempos de criança, o primeiro dia na escola paga com o banquinho numa mão e a ardósia na outra, o riso dos meus filhos e de outras crianças sentadas no pequeno banco feito à medida para elas.
Foi concerteza feito com o amor genuíno que se tem por crianças e por isso o significado dessa pequena prenda evoca a tua imagem carinhosa.
De vez em quando um menino senta-se nele e sorri e eu digo-lhe: "Sabes, foi uma oferta do meu padrinho."

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